| 08/02/2012 15h29 - Atualizado em 08/02/2012 15h36

A DEPRECIAÇÃO DA MULHER EM INFERÊNCIAS MUSICAIS


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1. INFORMAÇÕES PRELIMINARES: A SOCIOLINGUÍSTICA

No livro “Os níveis da fala” de Dino Preti, publicado em 1997, especificamente no capítulo que tem por nome “A sociolinguística e o fenômeno da diversidade na língua de um grupo social – dialetos sociais, níveis de falas ou registros”, estabelecem-se os conceitos fundamentais da sociolinguística. O autor mostra que essa ciência surgiu nos Estados Unidos entre as décadas de 50 e 60, e estuda as variações linguísticas e sociológicas. Dessa maneira, percebe-se como a língua pode mudar em determinadas situações da vida. Por meio da imitação, aprendemos a utilizar a fala para a comunicação. Porém, somente após certa idade compreendem-se os diversos itens que influenciam a maneira de falar.

Variações extralinguísticas estão cada vez mais chamando a nossa atenção e a de pesquisadores. Quando se visitam outros lugares dentro de um mesmo país percebemos as variações geográficas, ou seja, cada região tem uma forma de se expressar para haver entendimento. Porém, podemos observar essa diversidade de falas na cidade onde se vive as variações sociológicas, isto é a influência da sociedade, da idade, do sexo, do nível de escolaridade que influência a fala de cada individuo. Também existem as variações contextuais, que são mais freqüentes na vida das pessoas, pois dependendo do lugar onde se encontram ou as pessoas com as quais convive, a fala varia muito.
 
Com o decorrer dos tempos a língua tornou-se um instrumento de poder. Quem aproveita muito bem as variações linguísticas são os publicitários, pois eles utilizam uma linguagem que se aproxime do público alvo. Dessa maneira, eles conseguem convencer mais facilmente ao público de que “aquele” produto é realmente bom. Com isso, a publicidade acaba colaborando na aceitação de alguns termos que antes eram repudiados pela sociedade, gerando assim um verdadeiro processo de desmistificação da chamada linguagem padrão.
    
Preti ressalta também nesta parte do livro a linguagem culta e coloquial. Ele nos apresenta vocábulos utilizados tanto na linguagem culta quanto na coloquial e, sugere a criação de mais um tipo de linguagem: a linguagem comum.

 Percebe-se assim a ampla área de estudos dentro da sociolinguística. As variações linguísticas ocorrem em todos os lugares do mundo e, exatamente por isso na atualidade vem despertando a curiosidade não apenas de pesquisadores, mas de todos os falantes.

2. INFERÊNCIAS: CONCEITOS INICIAIS

A escrita é um legado cultural das civilizações primitivas à Humanidade cujo aperfeiçoamento vem acontecendo por meio de um processo longo, desde seu surgimento no quarto milênio a.C.

Charaudeau (2007, p. 36) Afirma que, “a informação é pura enunciação” ao postular que “ela [a informação] constrói saber e, como todo saber, depende ao mesmo tempo do campo de conhecimentos que o circunscreve, da situação de enunciação na qual se insere e do dispositivo no qual é posta em funcionamento”.

Segundo Holanda (2001), a definição clássica de inferência é “deduzir pelo raciocínio”. Ou seja, as pessoas podem perceber uma inferência desde a primeira vez que analisam, por exemplo, uma música.

Beaugrande e Dressler (apud Koch & Travaglia, 1989, p.70) expressam que, inferência “consiste em suprir conceitos e relações razoáveis para preencher lacunas e descontinuidades de um mundo textual”. Entende-se disso que, a mensagem não precisa estar explícita no texto para o leitor entender, basta o leitor estar inserido no contexto.

Smith (1989, p. 266) afirma que “vivemos em um mundo que o cérebro cria, em vez de, em algum mundo concreto que existe independentemente de nós”. Então, percebe-se como as inferências musicais, por exemplo, influenciam na vida em sociedade.

No uso da linguagem, as várias percepções que surgem de um único assunto estão relacionadas ao conjunto de conceitos da sociedade, educação e costumes. Decorre daí que a multiplicidade de leituras possíveis de acordo com o conhecimento de mundo do leitor e seu contexto sócio-cultural.
Portanto, o processo de inferências tem como propósito a ocultação ou o mascaramento das verdadeiras intenções comunicativas diante do interlocutor.

3. ANÁLISE MUSICAL

O termo forró tem duas possíveis origens, a primeira seria de uma expressão inglesa, for all, que significa para todos. A segunda seria uma abreviatura de forrobodó e ferrodança, termos que designavam o lugar onde acontecia determinado baile popular.

Torna-se importante ressaltar que o gênero musical forró era conhecido apenas como baião. Este passou a ser reconhecido a partir de meados da década de 1940 no cenário musical brasileiro, o que fez com que ficasse famoso seu maior divulgador, Luis Gonzaga.

O forró brasileiro se divide em três categorias: o forró tradicional, universitário e eletrônico. O forró tradicional, criado em meados da década de 40, sua característica mais marcante foi que, apesar de ser uma criação urbana, se baseava no universo do homem sertanejo. Os instrumentos utilizados são: a sanfona, a zabumba e o triângulo. Seu figurino consistia em trajes típicos. As músicas usam uma linguagem rural, retratando a seca e o sofrimento do nordestino, porém também retrata a alegria do povo expressa nas festas e na criatividade artística e cultural.

Já o forró universitário surge em 1975 e consolida-se na década de 90. Ele resulta da fusão da linguagem do forró tradicional com a linguagem da música popular urbana. O fato de que os primeiros apreciadores eram jovens universitários deu esse nome ao gênero. Junto aos instrumentos já utilizados no gênero anterior acrescentou-se a guitarra, o baixo, o teclado, o saxofone e a bateria. O forró universitário tem como representante mais conhecido o grupo “Falamansa”.

Por sua vez, o forró eletrônico, que daremos maior enfoque nesta análise, surgiu em 1993, tem como inspiração a música sertaneja romântica, o romantismo brega e axé music. Além dos instrumentos utilizados nos gêneros anteriores, acrescentam-se os sintetizadores, a percussão e o órgão eletrônico. A banda, com uma média de 16 integrantes, entre músicos e bailarinos, utiliza um visual com muito brilho e iluminação. Suas roupas são bem produzidas: os homens, em sua maioria, usam calça country e cabelos longos, enquanto as bailarinas vestem minissaias ou calças colantes demonstrando assim muita sensualidade.

O grupo Aviões do Forró é um famoso representante do forró eletrônico. Uma de suas músicas de maior destaque é Chupa que é de uva, a qual foi escolhida como objeto de análise. Abaixo segue a letra da música:


Chupa que é de uva - Aviões do Forró

- Vem meu cajuzinho!
Te dou muito carinho!
Me dá seu coração!
Me dá seu coração!
Vem meu moranguinho!
Te pego de jeitinho.
Te encho de tesão!
Te encho de tesão!
- Me deixa maluca!
Tira o mel da fruta.
Me mata de amor!
Me mata de amor!
Me pega no colo,
Me olha nos olhos,
Me beija que é bom!
Me beija que é bom!
- Na sua boca eu viro fruta.
Chupa que é de uva!
Chupa! Chupa!
Chupa que é de uva!


Inicia-se a pesquisa com a análise morfológica da letra da música. Que contém 82 palavras, sendo que o pronome oblíquo átono “me”, aparecendo 9 vezes é a palavra que mais se repete. E, ainda em uma das expressões em que ele aparece: “Me dá seu coração”, há um erro: o pronome deveria estar após o verbo, dá-me, havendo assim uma ênclise.
Para inserir o leitor de forma aprofundada na análise, segue abaixo um gráfico com análise morfológica, contendo a porcentagem de cada classe gramatical. Observe:

grafico

 Observam-se na música vários fenômenos semânticos, entre eles, figuras de linguagem e recursos sonoros, que serão analisados individualmente.

No primeiro e no quinto verso, a mulher é chamada de cajuzinho e moranguinho, respectivamente, ocorrendo assim uma prosopopeia, afinal na expressão foi trocado um substantivo próprio pelo nome de uma fruta.

Na expressão “Me dá seu coração” ocorre uma metonímia, pois se trata de um órgão humano e seria então impossível alguém dar o coração a outra pessoa. Ocorre um eufemismo no verso “Te pego de jeitinho”, porque na palavra “jeitinho”, está subentendido o ato sexual, e também em: “Chupa que é de uva” que se refere ao sexo oral.

Encontram-se na música três exemplos de hipérbole: “Me deixa maluca”, “Me mata de amor” e “Na sua boca eu viro fruta”. Afinal, a loucura que está expressa não é psicológica, porém uma forma de pedir ao homem que proporcione prazer a mulher. Respectivamente, a mulher não pede ao homem que a mate, e sim que ele a deixe excitada. Finalmente, não há como a mulher se transformar em fruta, mas durante o ato sexual, ela pode ser comparada a uma, já que o homem tira a sua roupa (a descasca), a beija (morde) e efetiva o ato sexual (come).

Além desses observam-se recursos sonoros, como por exemplo, a anáfora, que consiste na repetição do pronome oblíquo átono “me” em seis versos respectivos. E a aliteração que consiste na repetição proposital e ordenada de sons consonantais: “Chupa que é de uva! Chupa! Chupa! Chupa que é de uva!”. O verbo chupar no modo imperativo indica que o homem está impondo o sexo oral à mulher. Considerando-a um ser inferior e de fácil acesso, que pode ser facilmente iludida e até mesmo comprada.

As palavras utilizadas na música demonstram, basicamente, a sociedade em que vivemos atualmente, ou seja, uma sociedade voltada para o consumo do prazer, que ao invés de cultuar o certo, gozam em plena consciência e sentem prazer pelo obsceno. Músicas e situações desse gênero instigam a curiosidade e mesmo fazem o prazer vir à tona, mas é claro, não pode ser deixado de citar que a maioria das pessoas procura esconder seus sentimentos e o seu  verdadeiro eu das outras pessoas e de si próprio. Isso se reflete na musica, pois, para não falar abertamente de um ato sexual explicito, utiliza-se o eufemismo, tirando assim um pouco o peso da letra.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
       
Ao analisar as figuras de linguagens, os recursos sonoros e as inferências contidas na música “Chupa que é de uva”, percebe-se que as características apresentadas são politicamente e socialmente incorretas, pois sua letra retrata a mulher como um mero objeto sexual.

Salienta-se que por meio das abordagens feitas, constata-se que letras de músicas estabelecem padrões sociais, sendo assim ensinam aos ouvintes preconceitos, induzem a práticas promíscuas, influenciam comportamentos eróticos que não são naturais, os quais oferecem riscos à saúde. Na música também se encontram explicitações de intimidades entre parceiros sexuais, comparando com a atualidade em que muitos homens e mulheres narram práticas sexuais para amigos, colegas ou desconhecidos, apenas para demonstrar seu poder sexual.
 
Observa-se ainda que as músicas influenciam na construção da personalidade das pessoas e na formação da sociedade, dessa forma contribuem para a concretização de conceitos, ideias e crenças. Com análises de músicas com letras de baixo sentido percebe-se que uma música pode ser repetida para um mesmo público ouvinte, várias vezes, sem causar cansaço ou fastio, pois quanto mais as pessoas a ouvem, mais elas a aceitam.

Portanto, pouca cultura musical contribui para que certas músicas façam sucesso, mesmo contento em suas letras: preconceitos, apologias ao crime, discriminações e mostrando a mulher como um ser inferior. A origem da palavra música vem dos vocábulos gregos mousikh, musiké, teknh e  techné, cuja composição significa a arte das musas ou das deusas mitológicas da poesia, algo bastante contraditório, pois na maioria das músicas de hoje a mulher é vista apenas como um objeto de prazer.

Considerando que a música é uma arte pouco valorizada como um meio de transmissão de conhecimento, a melhor maneira para que todos aprendam a apreciar músicas com letras que representem a cultura artística do povo brasileiro, é inseri-la no contexto escolar, para que  as pessoas, desde pequenas conheçam a variedade de gêneros e estilos musicais. Dessa forma, músicas com letras de baixo sentido, como a analisada, não fariam tanto sucesso entre o povo brasileiro, pois quanto mais culto o povo se torna, mais exigente ele fica.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LYONS, John. Linguagem e linguística: uma introdução. Rio de Janeiro, LTC, 1987.

NETO, Reginaldo Nascimento. Inferências: A força persuasiva do dito pelo não dito no estabelecimento de comportamentos sociais, 2008. Dissertação de mestrado.http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cp081646.pdf.
Acesso em 11 de maio de 2011 às 15h02.

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