Um projeto desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pode revolucionar o combate à dependência química. A vacina Calixcoca, resultado de anos de pesquisa científica, está prestes a se tornar o primeiro imunizante antidroga do mundo a oferecer uma abordagem inédita no tratamento de usuários de cocaína e crack.
A pesquisa, iniciada em 2015 pelo professor Frederico Garcia, da Faculdade de Medicina da UFMG, já superou as etapas pré-clínicas, demonstrando segurança e eficácia em testes com animais. Agora, o projeto avança para uma fase decisiva: a preparação dos estudos de fase 1 em seres humanos.
"Estamos terminando a preparação dos documentos para submissão na Anvisa para obtermos a autorização para o estudo de fase 1. Este estudo verificará possíveis efeitos colaterais em humanos", explica o pesquisador.
A previsão é de que os primeiros testes em humanos ocorram em até dois anos, com a expectativa de que a vacina se torne um produto definitivo nos próximos três ou quatro anos.
Como funciona
O mecanismo de ação da Calixcoca representa uma inovação tecnológica significativa. O medicamento induz o sistema imune a produzir anticorpos que se ligam à cocaína na corrente sanguínea, transformando a droga em uma molécula grande demais para atravessar a barreira hematoencefálica, estrutura responsável por regular o transporte de substâncias entre o sangue e o sistema nervoso central. Com isso, a droga não consegue atingir o cérebro e produzir seus efeitos.
Frederico Garcia destaca que, caso os resultados sejam positivos, o imunizante poderá ser uma ferramenta crucial para a reinserção social de pacientes.
"Demonstramos a redução dos efeitos, o que sugere eficácia no tratamento da dependência. Pensamos em utilizar o fármaco para evitar recaídas em pacientes que estão em tratamento, dando mais tempo para eles reconstruírem sua vida sem a droga", afirma.
O desenvolvimento da vacina conta com robusto apoio institucional. Em 2023, a UFMG e o Governo de Minas Gerais firmaram acordo para um aporte de R$ 10 milhões, viabilizado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e pela Secretaria de Estado de Saúde. O recurso permitirá a continuidade da pesquisa até a fase 1 de testes em humanos.
A relevância internacional do projeto foi reconhecida com o Prêmio Euro Inovação na Saúde, na categoria Inovação Tecnológica Aplicada à Saúde. A conquista garantiu ao estudo uma premiação de 500 mil euros (cerca de R$ 2,6 milhões), destinados exclusivamente ao desenvolvimento da vacina.
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