Quando Dom Pedro I proclamou a Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, São Paulo estava muito longe de ser a metrópole que conhecemos hoje. A cidade onde ocorreu o episódio que entrou para a história nacional tinha cerca de 7 mil habitantes em seu núcleo urbano, segundo estimativa histórica baseada em levantamento do historiador Nestor Goulart Reis.
A dimensão desse número fica ainda mais curiosa quando comparada à realidade do Oeste de Santa Catarina. Segundo as estimativas populacionais do IBGE para 2026, Ponte Serrada tem 10.732 habitantes, Abelardo Luz, cerca de 18 mil, Faxinal dos Guedes, cerca de 11,5 mil. Ou seja, a São Paulo urbana de 1822 tinha uma população menor do que essas e muitas outras pequenas cidades do Oeste.
A comparação ajuda a imaginar o Brasil de 204 anos atrás. Em 1822, o núcleo urbano de São Paulo estava concentrado principalmente na região que hoje corresponde ao centro histórico. O Ipiranga, onde ocorreu o episódio associado à Independência, ficava afastado dessa área e era uma região de passagem entre o planalto paulista e o litoral.
A cidade tinha ruas de terra, construções relativamente baixas, igrejas, casas e chácaras. A circulação de pessoas era marcada por tropeiros, comerciantes, religiosos, militares, pessoas escravizadas e trabalhadores livres.
A São Paulo do Ipiranga era uma pequena cidade. O Brasil era majoritariamente rural, não tinha realizado seu primeiro Censo, utilizava réis, dependia do trabalho escravizado e levava dias ou semanas para percorrer distâncias que hoje são vencidas em algumas horas.
Brasil ainda não sabia exatamente quantos brasileiros existiam
O primeiro levantamento censitário realizado em todo o país só aconteceria em 1872, cinquenta anos depois da Independência. Por isso, os números sobre a população brasileira em 1822 são estimativas históricas, produzidas a partir de registros disponíveis na época.
O IBGE destaca que, antes do primeiro Censo, os levantamentos populacionais eram fragmentados e utilizavam diferentes fontes, como registros paroquiais e administrativos. O Brasil era um país de população muito menor e predominantemente rural, com grandes distâncias entre os núcleos urbanos.

Um país escravocrata
A sociedade de 1822 também era muito diferente da atual. A escravidão fazia parte da estrutura econômica e social do país. Milhões de africanos haviam sido trazidos à força para o Brasil ao longo dos séculos anteriores, e o trabalho escravizado estava presente na agricultura, nos serviços domésticos, no comércio e em diversas atividades urbanas.
A Independência não significou o fim da escravidão. O sistema permaneceu por mais de seis décadas após 1822, sendo abolido somente em 13 de maio de 1888.
O contraste é fundamental para entender aquele Brasil: o país que conquistou a independência política de Portugal manteve estruturas sociais herdadas do período colonial.
Quem vivesse no Brasil de 1822 também teria dificuldade para reconhecer o sistema monetário atual. A moeda era o real, cujo plural era réis. Valores como 100, 320, 640 e 1.000 réis faziam parte do cotidiano.
O chamado mil-réis permaneceu como referência monetária brasileira até o século XX, quando o país passou por outras mudanças de moeda.
Sem luz elétrica nas ruas
A vida cotidiana também era marcada pela ausência de tecnologias que hoje parecem básicas. Não havia iluminação elétrica, internet, automóveis, televisão ou rádio. Nas cidades, a iluminação pública utilizava lampiões, enquanto a água era frequentemente obtida em chafarizes e outras fontes públicas. As viagens eram demoradas. Cavalos, mulas, carroças e embarcações eram fundamentais para o deslocamento.
“Independência ou Morte!”

A narrativa tradicional apresenta Dom Pedro recebendo cartas, desembainhando a espada e proclamando: “Independência ou Morte!”
O episódio se tornou um dos símbolos mais conhecidos da história brasileira. Mas a Independência não se resumiu àquela cena.
O processo envolveu disputas políticas entre Brasil e Portugal, diferentes interesses das elites, participação de personagens como José Bonifácio e Maria Leopoldina e conflitos em várias partes do território.
O Arquivo Nacional destaca que a separação não ocorreu de maneira uniforme. Na Bahia, por exemplo, a luta contra as tropas portuguesas continuou até 2 de julho de 1823, data que ainda hoje é celebrada como a Independência da Bahia.
Outra curiosidade é que o novo país não nasceu como uma república. Dom Pedro foi aclamado imperador e o Brasil manteve a monarquia até 1889, quando a República foi proclamada.
A historiadora Lilia Schwarcz, autora de Brasil: Uma Biografia, analisa justamente essa característica peculiar da formação brasileira: a Independência rompeu o vínculo político com Portugal, mas preservou diversas estruturas sociais e econômicas do período colonial. O Brasil independente, portanto, não começou do zero.
Mais do que lembrar o momento em que Dom Pedro proclamou a Independência, o 7 de Setembro é também uma oportunidade para perceber o tamanho da transformação ocorrida no Brasil em pouco mais de dois séculos.
Portal Tri com Oeste Mais
