A perda repentina de uma criança provoca um impacto emocional intenso e desestruturante nas famílias. Segundo a neuropsicóloga infantil Keila Zampiron, da Clínica Lumiê, o luto nesses casos costuma vir acompanhado de sentimentos profundos como dor, choque, vazio e, principalmente, culpa.
Mesmo quando não há responsabilidade direta pelo ocorrido, é comum que pais e cuidadores se sintam culpados. Segundo a especialista, esse sentimento surge da tentativa de compreender o que aconteceu.
"É comum que os pais revisitem mentalmente os acontecimentos inúmeras vezes, tentando entender o que poderia ter sido feito de forma diferente. Frases internas como 'eu deveria ter percebido', 'eu poderia ter evitado' ou 'eu falhei', aparecem com frequência nesse processo", explica.
Outro fator que intensifica o sofrimento é a quebra da chamada “ordem natural da vida”, em que se espera que os pais partam antes dos filhos. Quando isso não ocorre, o impacto psicológico tende a ser ainda mais profundo.
"Isso não significa que exista uma ordem “correta” para a morte, mas sim que o psiquismo humano tende a buscar sentido, previsibilidade e organização diante do que é imprevisível e doloroso", destaca Keila.
Na psicologia do luto, estudos como os da psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross apontam que perdas inesperadas podem desencadear reações intensas, como choque, negação e desorganização emocional. Isso acontece não apenas pela ausência da criança, mas também pela ruptura de planos, sonhos e do futuro imaginado pelos pais.
A neuropsicóloga ressalta que o luto é um processo individual e não segue etapas fixas. Cada pessoa vivencia a perda de forma única, com diferentes intensidades e ao longo do tempo. Além disso, situações de morte repentina podem trazer julgamentos externos, como tentativas de responsabilizar os pais ou reconstruir o ocorrido, o que aumenta ainda mais o sofrimento.
“Esse acúmulo entre dor interna e julgamento externo pode intensificar o sofrimento emocional e dificultar o processo de elaboração do luto”, afirma.
Entre as reações mais comuns estão tristeza profunda, ansiedade, insônia, isolamento social e exaustão emocional, sintomas que podem se agravar sem o devido suporte.
A ideia de que “o tempo resolve tudo” também é questionada pela especialista. Segundo ela, o tempo não apaga a perda nem substitui o vínculo interrompido. O que pode acontecer, com apoio emocional adequado, é uma reorganização da vida diante da ausência.
Por isso, o acolhimento é considerado fundamental. Famílias que enfrentam esse tipo de perda precisam de escuta, empatia e um espaço seguro para expressar a dor sem julgamentos. Buscar ajuda profissional, reforça Keila, é um ato de cuidado diante de uma experiência profundamente dolorosa.
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