Dados da mais recente edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada nesta quarta-feira (25) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, revelam um cenário preocupante em Santa Catarina: adolescentes estão tendo contato cada vez mais cedo com bebidas alcoólicas e cigarros eletrônicos, os chamados vapes. O levantamento traça um panorama dos hábitos de estudantes entre 13 e 17 anos e coloca o Estado entre os destaques negativos do país.
Mais de 60% já experimentaram álcool
Santa Catarina aparece entre os estados com maior consumo de álcool entre adolescentes. Segundo a pesquisa, 62,8% dos estudantes afirmaram já ter experimentado bebida alcoólica — o segundo maior percentual do Brasil, atrás apenas do Rio Grande do Sul (65,9%). O consumo é mais frequente entre meninas (66,8%) do que entre meninos (58,9%).
O índice catarinense supera a média nacional, de 53,6%, embora represente queda em relação a 2019, quando o percentual era de 73,8%. Outro dado que chama atenção é o ambiente familiar: 19,2% dos adolescentes disseram ter conseguido bebida alcoólica diretamente com os pais, o maior índice do país.
Primeiro contato acontece cedo
A PeNSE aponta ainda que 32,9% dos estudantes catarinenses tiveram o primeiro contato com o álcool aos 13 anos ou menos, número acima da média nacional (29,3%). Entre os que iniciaram precocemente, as meninas lideram (35,4%), contra 29,9% dos meninos.
No recorte nacional, Santa Catarina também se destaca por apresentar o maior percentual de consumo entre meninos e a segunda maior taxa de consumo recente (27% relataram beber nos 30 dias anteriores à pesquisa), novamente atrás do Rio Grande do Sul (31,1%). Em contrapartida, o Estado tem o segundo menor índice de consumo excessivo — cinco doses ou mais em um único dia — com 11,2%, acima apenas de São Paulo (6,7%).
No Brasil, a venda, oferta ou fornecimento de álcool a menores é crime, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O consumo precoce pode causar danos irreversíveis ao cérebro, dependência e aumento de comportamentos de risco, segundo o Ministério da Saúde.
Vape cresce e já atinge quase 4 em cada 10 jovens
Enquanto o uso do cigarro tradicional apresenta queda, o cigarro eletrônico avança rapidamente entre os adolescentes. De acordo com a PeNSE, 38,7% dos estudantes catarinenses já usaram vape — o sexto maior índice entre os estados brasileiros. O consumo é mais frequente entre meninas (41,5%) do que entre meninos (36%).
Riscos à saúde
Em entrevista, o pneumologista Roger Pirath Rodrigues, do Hospital Universitário Professor Polydoro Ernani de São Thiago, da Universidade Federal de Santa Catarina (HU-UFSC), alerta que o cigarro eletrônico não é inofensivo. Tosse persistente, falta de ar e quadros de pneumonite já têm sido associados ao uso frequente dos dispositivos eletrônicos para fumar (DEF).
Estudos citados pelo especialista, realizados pelo Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), indicam que a presença de nicotina no organismo de usuários de DEF pode ser até seis vezes maior do que em fumantes de cigarros convencionais, além do alto potencial de dependência.
O uso de vapes também está relacionado a doenças como bronquite, asma, pneumonite lipoídica, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) precoce e à EVALI — lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico, considerada uma das formas mais graves dessas complicações.
Produto é proibido no Brasil
Desde 2009, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proíbe a fabricação, importação, comercialização e propaganda de cigarros eletrônicos no país. Apesar disso, os produtos seguem circulando de forma ilegal.
Uma pesquisa conduzida pela UFSC, em parceria com a Polícia Científica, analisou cigarros eletrônicos apreendidos em Joinville e identificou a presença de octodrina, substância semelhante à anfetamina e proibida pela Agência Mundial Antidoping (WADA). O composto pode causar problemas cardiovasculares, dependência e sintomas de abstinência.
Para a pesquisadora Camila Marchion, professora do Departamento de Patologia da UFSC, o levantamento reforça a necessidade de alerta:
— O cigarro eletrônico não é substituto do cigarro convencional. Ele apresenta riscos importantes à saúde e tem sido usado para atrair jovens que não fumavam — destaca.
Segundo a docente, visitas a escolas públicas de Florianópolis indicaram que cerca de 30% dos adolescentes já experimentaram vape, e 6,2% continuam usando. A falta de regulamentação agrava o problema, já que os fabricantes não são obrigados a informar com clareza as substâncias presentes nos dispositivos.
NSC